Os medicamentos servem para aliviar dores e curar males do corpo. Porém, quando tornados sem prescrição médica, pode agravar a doença que deveria curar. Apesar de saber do perigo de ingerir remédios com base na indicação do balconista da far­mácia, de amigos ou por achar que os sintomas são os mesmos de urna doença que já teve, grande parte da po­pulação ainda recorre a automedicação, prática de ingerir remédios por conta própria, bastante comum no Brasil. 

0 estudo "Configuração do Complexo Econômico da Saúde", realizado pela Unicamp a pedido do Ministério da Saúde, concluiu que pelo menos 50% das vendas dos medicamentos tradi­cionais do mercado brasileiro corres­pondem a automedicação. 0 estudo revela que uma das principais causas que explica a prática é a economia que se faz na consulta médica e no exame diagnóstico.   

Sem condições financeiras de adquirir um plano de saúde ou procurar um médico particular, e encurraladas pela ineficiência do sistema público de saú­de que, geralmente, não resolve o pro­blema em tempo hábil, as pessoas partem para o uso de medicamentos indicados por leigos. Porém, o baixo poder aquisitivo da população não explica, por si só, o fenômeno da automedicação, já que ela ocorre também nas camadas mais privilegiadas da sociedade. Várias outras hipóteses convergem na tentativa de explicar as causas desse comportamento. 
0 estu
do mostra que, se o paciente ficar
satisfeito com o remédio, continuará comprando sem voltar ao médico. 

0 alergologista Pedro Carneiro explica que, no Brasil, vários remédios, até mesmo antibióticos, são vendidos sem receita. "Além disso, tem o famoso 'boca-a-boca', em que alguém indica o remédio aos amigos e familiares. Tern, também, a liberdade excessiva de propagandas de remédios, que faz com que a população se identifique com os sintomas descritos e se auto­medique. Mas isso só vai diminuir se houver campanhas educativas que incentive a visita ao médico ou mudan­ças na legislação da propaganda farmacêutica", afirma.

 

Alguns atribuem esse fenômeno, também, ao excesso de pontos-de-venda. Atualmente, existe uma farmácia para cada três mil habitantes, quando o número preconizado pela OMS (organização Mundial da Saúde) é de uma para cada grupo de 8 mil habitantes. 

A conduta de se automedicar, embora muitas vezes seja explicada pela economia que se faz, pode sair mais cara, pois os remédios podem agravar doenças, mascarar sintomas e provo­car efeitos colaterais danosos como, por exemplo, a intoxicação causada por alergia ao remédio. No Brasil, por exemplo, a intoxicação por medica­mentos é comum. Dados do Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX) da Universidade de São Paulo (USP) apontam que dos 3211 casos de intoxicação registrados em 1998, 40% foram provocados por rnedicarnentos. 

Pedro Carneiro explica que a automedicação pode trazer sérios danos à saúde. "Vários são os riscos que se corre: o paciente pode ter alergia ao medicamento, o fármaco pode fazer com que as bactérias se tornem imu­nes ao mesmo e se o paciente possuir alguma doença que não tenha conheci­mento, o problema pode ser agravado". 

 Embora a existência de efeitos adver­sos sempre tenha acompanhado o uso de determinadas substâncias, somente a partir da década de 60, com a tragédia da talidomida - em 1962 descobriu-se uma ligação entre um certo tipo de deformação fetal e o uso da substância -, é que a preocupação com os efeitos adver­sos dos medicamentos tornou-se alvo freqüente das pesquisas dos laborató­rios e indústrias farmacêuticas. 

Seja por questões financeiras ou pelo hábito de tentar solucionar os proble­mas de saúde corriqueiros, tomando por base a opinião de algum conhecido mais próximo, a automedicação é uma realidade e precisa de atenção espe­cial. Por trás deste ato, aparentemente tolo e sem conseqüências, está um problema em potencial para a saúde. Portanto, é necessário alertar a todos que a administração de medicamentos errados ou, ainda, em dosagens inade­quadas pode trazer conseqüências trágicas, que vào desde a indução à dependência até a intoxicação 

  Pedro Carneiro 

drpedrocarneiro@hotmail.com

Telefone: (81) 3221-1763

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